Publicado na 15 de dezembro de 2015

Por Juan Maria Segura


A partir de uma perspectiva global e em comparação com outras regiões do mundo, a América Latina é a região que menos inova em educação. Esta é uma das conclusões de estudo apresentado pela empresa de pesquisa de opinião Gallup durante o World Innovation Summit for Education (WISE), realizado recentemente no Catar. Ante a pergunta “Quão inovador você acredita que é o sistema educativo do seu país?”, 66% dos entrevistados de países latino-americanos consideraram que a região inovou entre nada e muito pouco.

Intitulada 2015 WISE Education Survey: Connecting education to the real world, a pesquisa consolida entrevistas realizadas pela Gallup em agosto passado. Mais de 1500 membros da comunidade educativa foram consultados, incluindo professores, estudantes, graduados, diretores e profissionais de educação, autoridades governamentais, gestores de políticas públicas, investidores e edupreneurs. Os 149 países representados no trabalho foram agrupados em nove áreas geográficas: Leste da Ásia (5 países), Sul da Ásia (6), Sudoeste da Ásia (11), Estados Unidos+ (4), Bálcãs (15), Europa (25), América Latina (26), Oriente Médio (20) e África (37).

O relatório começa com um Raio X da nossa região: apenas 11% dos consultados mostraram satisfação com a situação geral de seu sistema educacional nacional, superior apenas aos 8% indicados pela região africana e muito inferior ao manifestado pelos países europeus (44%). Ao destrinchar estas respostas de acordo com o perfil do entrevistado, a situação se agrava quanto mais a pessoa estava próxima do centro do processo educativo. Os estudantes e os recém-formados são os que manifestam maior insatisfação – e a escola (segmento K-12) é onde esta insatisfação é mais evidente.

Na seção de qualidade de ensino por tipo de tópico ou matéria, destaca-se por ser a região onde pior se ensinam tanto matérias modelo-sociedade-industrial (matemática, interpretação de texto, escrita) como aquelas mais próprias do novo paradigma da cultura digital (computação, tecnologia, criatividade, inovação). Estes resultados validam a má colocação dos países da região nas provas internacionais do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Segundo o estudo, no Leste da Ásia é onde melhor se ensina matemática; a Europa e os Bálcãs são líderes em interpretação de texto; e a região Estados Unidos (EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia) melhor prepara meninos e meninas em competências do século XXI.

A consequência lógica deste quadro, em concordância com a experiência prática de quem assina a pesquisa, é que os professores e docentes não recebem um tratamento respeitoso. Apenas 27% declaram que os encarregados pela aula são tratados com respeito na América Latina, em comparação com uma média mundial de 59% – e bem distante do informado por 79% dos respondentes do Leste da Ásia.

O encadeamento de realidades, resultados dos aprendizados, colocação em rankings internacionais, nível de valorização social e projetos normativos induzem os entrevistados a sugerir linhas de ação questionáveis. Em primeiro lugar, o relatório afirma que o maior desafio para a escola está relacionado com a qualidade dos professores, embora deva estar mais relacionado com a qualidade e significado da aprendizagem. Existe pouco espaço no estudo onde se pode refletir sobre esta questão, enquanto as ciências neurocognitivas já fornecem ampla evidência de que a pedagogia modelo educare não maximiza o potencial do aprendizado, curiosidade e emotividade de uma criança. Em segundo lugar, existe uma declaração quase unânime de que os países investem pouco em educação, com apenas 27% mostrando satisfação com os níveis atuais. Isso contrasta com níveis recordes de investimento de uma porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) em vários países. Finalmente, a pesquisa mostra que 70% dos entrevistados afirmam que são as universidades – e não os empregadores – que têm como responsabilidade primária e principal preparar os jovens para o êxito no primeiro emprego, enquanto 54% dizem que as universidades estão falhando neste papel.

Pergunto-me o que os estudantes deveriam fazer frente a instituições que não inovam, ensinam mal tanto os conteúdos core quanto as competências aplicadas, não preparam bem para o mercado de trabalho e veem que um empregador valoriza mais a experiência profissional prévia que uma boa nota acadêmica como método de contratação. A resposta é óbvia.

Celebro com entusiasmo o trabalho publicado pela Gallup. A riqueza da informação disponível permite verificar algumas questões comuns a todas as disciplinas a nível mundial (por exemplo, que inovar é obrigatório, mas ninguém assumiu a liderança) e outras mais próprias de cada região (por exemplo, que a educação da América Latina é uma das piores).

Durante o encontro no Catar, assisti ao momento em que estes resultados foram tornados públicos. Assim que tive a oportunidade de perguntar ao diretor da Gallup sobre formação para o empreendedorismo, dado que no mundo de hoje os graduados preferem ser seus próprios empregadores a pedir emprego a um terceiro. “No momento, este é um assunto ausente em praticamente todos os currículos do mundo”. Mais claro…

Lição de casa: discutir o relatório com colegas de sua própria instituição de ensino e comprometer-se em fazer melhorias e modificações que visam aprimorar o aprendizado de todas as disciplinas. Inovação não é uma opção, é uma obrigação deste tempo para aqueles que atuam na educação. Coragem!