Publicado na 16 de junho de 2016

Por Juan Maria Segura

O efeito de superioridade das imagens, conhecido também por PSE, da sigla em inglês (Picture Superiority Effect), é uma corrente de estudos iniciada na década de 1970, que destaca a superioridade das imagens na fixação na memória sobre outras formas sensoriais de consumo de informação. Ela se refere à ideia de que os conceitos que são aprendidos mediante a visualização de imagens produzem uma recordação melhor que aqueles que são assimilados por meio das palavras. Apesar desse efeito ter sido demonstrado em numerosos experimentos, utilizando diferentes métodos, as explicações científicas desta superioridade ainda são desconhecidas e pouco debatidas.

A primeira evidência científica que explica o PSE provém da Teoria de Dupla Codificação, elaborada por Allan Paivio. Por meio dela, diz-se que os estímulos produzidos pela imagem no cérebro possuem uma vantagem sobre as palavras, pois estão codificados duplamente através de um código verbal e um imaginário, enquanto os textos escritos geram estímulos que produzem apenas um código verbal. Além disso, as imagens são suscetíveis a gerar uma ‘etiqueta verbal’, enquanto as palavras não podem gerar ‘etiquetas de imagem’. Esta diferente forma de fixação das imagens na memória permite que a informação assim codificada se mantenha ativa durante uma maior quantidade de tempo, e seja mais facilmente recapturada e posta à disposição da criação de novos significados interpretativos.

A explicação de Paivio foi refinada por outros autores, que sustentam que a complexidade intrínseca própria de cada imagem enquanto a textura, forma, cor, volume e outros detalhes permitem ao córtex – que é a parte mais evoluída do cérebro, identificada como cérebro pensante – fixar registros altamente específicos e sofisticados, aumentando sua permanência na memória. Esta distinção e superioridade perceptiva da imagem também é acompanhada, em muitos casos, pela superioridade em fixação de conceitos a partir da geração de metaformas de conhecimento.

A superioridade das imagens também se produz em comparação com a captura sonora da informação, ou seja, a comunicação oral. Pesquisas indicam que a exposição visual em forma ininterrupta de cerca de duas mil imagens em um prazo de dez segundos cada uma, mais de 90% delas continuam na memória depois de três dias, e 63% se mantém no prazo de um ano. Em comparação, com as apresentações orais, ocorre o contrário, pois, após três dias, lembra-se apenas de 10% do que foi escutado, valor que se pode aumentar para 65% quando se agrega uma imagem à apresentação oral. Estas conclusões reforçam a ideia de que as imagens são as campeãs da memória, e que o consumo multissensorial de informação gera melhores registros de memória.

Os estudos anteriores ganham especial relevância a partir do trabalho de Bieger e Glock, que estabelecem nove categorias possíveis de conteúdo informacional que o cérebro é capaz de distinguir a partir de uma imagem: 1) inventarial; 2) descritivo; 3) operacional; 4) espacial; 5) contextual; 6) covariante (aquele que especifica uma relação entre duas ou mais partes de informação que variam juntas); 7) temporal; 8) qualificador; e 9) enfático. Com isto, é possível afirmar que a imagem possui um elevadíssimo poder de transmitir informações de diferentes naturezas e condições, fortalecendo a participação da memória na aprendizagem memorística e repetitiva, e na construção de significados de complexidade e originalidade superiores.

Apesar destas pesquisas, a participação das imagens dentro das instituições educativas sempre foi marginal, subordinada à forma dominante de transmissão, que é o texto escrito. Considerada como um recurso de hierarquia inferior, a imagem viu sua participação ser limitada a ‘pouco significativa’ e ‘meramente decorativa’. É mais bonito um livro ou manual com desenhos e fotos do que um sem – sem se importar se essa particular combinação de sistemas simbólicos favorece algum tipo de aprendizagem particular. Este menosprezo pelo verdadeiro valor da imagem dentro da escola, finalmente institucionalizado culturalmente e convertido em dogma, desenvolveu-se em tal analfabetismo interpretativo, que previne que pessoas expostas a elas sequer reconheçam sua presença ou potencial.

Estudar e atender de modo explícito os efeitos provocados pelo uso cotidiano de imagens e assumir a necessidade de alfabetizar aqueles sistemas simbólicos com maior presença e potencial de desenvolvimento constituem um desafio para a comunidade educativa. E se nesse trajeto emerge evidência científica que permite sustentar que o maior potencial de desenvolvimento se encontra em sistemas simbólicos diferentes do dominante, ele terá que migrar.

As fotografias, incluídas dentro de uma categoria genérica de imagens já mencionada, recebem uma consideração especial devido à sua presença dominante nos ecossistemas de atividade social, lúdica, informacional e comunicacional gerados a partir da revolução da internet e das tecnologias da informação e das comunicações. As fotografias geradas diariamente a partir de sete bilhões de celulares, dois bilhões de smartphones, sem falar em tablets e outros dispositivos digitais, circulam na internet por 2,5 bilhões de internautas, dão a este movimento histórico do homem um caráter particularmente fotocêntrico. Privar o sistema educativo de um uso mais intensivo dos recursos fotográficos digitais no processo de aprendizagem, não apenas significa depreciar os avanços científicos e evidências teóricas que assim o sugerem, como também significa anular o sistema educativo de exercer um papel protagonista na modelação das capacidades compreensivas e valorativas dos aprendizes.

Reafirmar esta premissa de maneira alguma significa abrir uma comporta com o fim de facilitar o ingresso de uma torrente indiscriminada e infinita de imagens fotográficas. Pelo contrário, significa revisar o papel que ocupam as imagens dentro de sistema de ensino-aprendizagem, com o objetivo de encontrar a combinação pedagógica-didática que gere melhores processos neurocognitivos. A ideia da imagem como mera acompanhante estética de textos escritos, como recurso de segunda ordem, deverá evoluir para uma presença mais central e protagonista. Dispor de recursos fotográficos digitais educativos de qualidade implica não apenas na existência de fotografias que satisfaçam critérios técnicos (foco, enquadramento, perspectiva, quantidade de pixels por unidade de superfície, por exemplo), mas que também reúnam elementos potencialmente úteis e relevantes para a educação. As imagens geradas pelo trabalho de fotógrafos e exploradores da National Geographic reúnem estes requisitos, desde o momento em que correspondem ao olhar de profissionais especialistas, cientistas e acadêmicos que fazem da captura da imagem uma arte suprema e funcional à premissa da organização de inspirar as pessoas a cuidar do planeta.

As imagens das publicações da National Geographic não são um mero acompanhamento dos textos, mas um elemento central e especialmente cuidado de sua cultura, missão e prática, favorecedoras da sensibilização. A pretensão de inspirar as pessoas encontra parte de seu colorário na elaboração de imagens carregadas de dignificado, tanto pelo que mostram como pelo que escondem ou sugerem. O manejo das proporções e dos volumes, a combinação de cores e formas, ou a disposição particular de atores ou dinâmicas biológicas convidam à reflexão, animam a curiosidade, geram amores ou ódios, e modelam condutas e sentimentos. Dispor de um acervo de imagens digitais com tamanho potencial para utilizar no desenho de ambientes enriquecidos de aprendizagem (EEA) que facilitem a emergência de metaformas de conhecimento e fortaleçam o envolvimento dos estudantes com seu próprio aprendizado, coloca a National Geographic Learning em uma posição vantajosa.