Publicado na 18 de fevereiro de 2015

O efeito de superioridade das imagens ou PSE em inglês (Picture Superiority Effect), é uma linha de pesquisa iniciada na década de 70, que destaca a superioridade das imagens na fixação na memória em detrimento de outras formas sensoriais de aquisição de informação. Refere-se à ideia de que os conceitos que são aprendidos por meio da visualização de imagens produzem uma recordação melhor que aqueles que são aprendidos por meio de palavras. Apesar de este efeito ter sido demonstrado em numerosos experimentos utilizando diferentes métodos, as explicações científicas desta superioridade ainda são desconhecidas e debatidas.

O primeiro fundamento científico que explica o PSE advém da teoria da codificação dual elaborada por Allan Paivio (1971, 1986, 1991). De acordo com esta teoria, sugere-se que os estímulos produzidos pela imagem no cérebro possuem uma vantagem sobre as palavras, porque estão codificados de forma dual, através de um código verbal imaginário, enquanto os textos escritos geram estímulos que produzem somente um código verbal. Além disso, as imagens são suscetíveis de gerar uma etiqueta verbal, enquanto as palavras não são suscetíveis de gerar etiquetas de imagem. Esta forma diferente de fixação das imagens na memória permite que a informação assim codificada mantenha-se ativa durante um grande período de tempo, e seja facilmente recapturada e colocada à disposição da criação de novos significados interpretativos.

A explicação de Paivio foi refinada por outros autores que sustentam que a complexidade intrínseca própria de cada imagem quanto à textura, forma, cor, volume e outros detalhes permitem que o córtex, que é a parte mais evoluída do cérebro, identificada como o cérebro pensante, fixar registros altamente específicos e sofisticados, aumentando sua permanência na memória. Esta distinção e superioridade de percepção da imagem também é acompanhada em muitos casos por superioridade na fixação de conceitos a partir da geração de metaformas de conhecimento.

A superioridade das imagens também se produz em comparação com a captura sonora de informação, ou seja, a comunicação oral. Pesquisas indicam que a exposição visual, de forma ininterrupta, de umas duas mil imagens durante um período de dez segundos cada uma, ainda continua na memória em mais de 90% após três dias, e até uns 63% ao final de um ano. Em comparação, com as apresentações orais ocorre o contrário, porque, após três dias, consegue-se lembrar de apenas 10% do que se escutou, valor que pode aumentar para 65%, quando se agrega uma imagem à apresentação oral. Essas conclusões reforçam a ideia de que as imagens são as supercampeãs da lembrança, e que a aquisição multissensorial de informação gera melhores registros de memória.

Os estudos anteriores possuem relevância especial a partir do trabalho de Bieger e Glock (1984/85), os quais estabelecem nove categorias possíveis de conteúdo informacional que o cérebro é capaz de distinguir a partir de uma imagem: i) de inventario, ii) descritiva, iii) operacional, iv) espacial, v) contextual, vi) covariante (aquela que especifica uma relação entre dois ou mais partes de informação que variam juntas), vii) temporal, viii) qualificadora, e ix) enfática. Isso permite afirmar que a imagem possui um elevadíssimo poder como transmissor de informação de natureza e condição diferentes, fortalecendo a participação da memória não na aprendizagem de memorização e repetitiva, mas na construção de significados de complexidade e originalidade superiores.

Apesar dessas pesquisas, a participação das imagens dentro das instituições educacionais sempre foi marginal, subordinada à forma dominante de transmissão, que é o texto escrito. Considerada como um recurso de hierarquia inferior, a imagem teve sua participação limitada a um papel entre pouco significativo e meramente decorativo. É mais “lindo” um livro ou manual com desenhos ou fotos, do que um que não possui, sem importar se essa combinação particular de sistemas simbólicos favorece algum tipo de aprendizagem em particular. Esse menosprezo pelo verdadeiro valor da imagem no ambiente escolar, finalmente institucionalizado culturalmente e convertido em dogma, desenvolveu um analfabetismo interpretativo tal, que até impede que os indivíduos expostos a elas sequer reconheçam sua presença ou potencial.

Estudar e atender, de forma explícita, os efeitos provocados pelo uso cotidiano de imagens e assumir a necessidade de alfabetizar naqueles sistemas simbólicos com maior presença e potencial de desenvolvimento constituem um desafio para a comunidade educacional. E, se nesse trajeto, surge evidência científica que permite sustentar que o maior potencial de desenvolvimento encontra-se em sistemas simbólicos diferentes do dominante, então terá de mudar.

As fotografias, incluídas na categoria genérica de imagens mencionada anteriormente, recebem uma consideração especial devido a sua presença dominante nos ecossistemas de atividade social, lúdica, informacional e de comunicação gerados a partir da revolução da internet e das tecnologias da informação e das comunicações. As fotografias geradas diariamente a partir de sete milhões de telefones celulares, dois bilhões de smartphones, além de tablets e outros dispositivos digitais, que circulam pela internet por dois mil e quinhentos milhões de internautas, imprimem a esse momento histórico do homem um caráter, particularmente, fotocêntrico. Privar o sistema educacional de um uso mais intensivo dos recursos fotográficos digitais no processo de aprendizagem, não significa somente desvalorizar os avanços científicos e evidências teóricas que assim o sugerem, mas também significa afastar o sistema educacional de um papel de protagonista na modelagem das capacidades compreensivas e valorativas dos aprendizes.

Reafirmar esta premissa, de nenhuma forma, significa capacitar a abertura de uma comporta com a finalidade de facilitar o ingresso de uma torrente indiscriminada e infinita de imagens fotográficas. Pelo contrário, significa revisar o papel que as imagens ocupam no sistema de ensino-aprendizagem, com a finalidade de encontrar a combinação pedagógico-didática que melhores processos neurocognitivos gerem. A ideia da imagem como mero acessório estético de textos escritos, como recurso de segunda ordem, deverá evoluir a uma presença mais central e de protagonista.

Dispor de recursos fotográficos digitais educativos de qualidade implica não somente a existência de fotografias que satisfaçam critérios técnicos (foco, enquadramento, perspectiva, quantidade de pixels por unidade de superfície, mencionando algumas), mas também que reúnam elementos potencialmente úteis e relevantes para a educação. As imagens geradas pelo trabalho de fotógrafos e exploradores da National Geographic reúnem esses requisitos, desde o momento que correspondem a observações competentes de profissionais, científicos e acadêmicos, que fazem da captura de imagens uma arte suprema, funcional à premissa dessa organização de inspirar as pessoas a cuidar do planeta.

As imagens das publicações da National Geographic não são um mero acompanhamento dos textos, mas um elemento central e especialmente cuidado de sua cultura, missão e prática, favorecedoras da sensibilização. A pretensão de inspirar as pessoas encontra parte de seu corolário na “elaboração” de imagens carregadas de significado, tanto pelo que mostram, como pelo que escondem ou sugerem. A manipulação das proporções e os volumes, a combinação de cores e formas, ou a disposição particular de atores ou dinâmicas biológicas, convidam à reflexão, animam a curiosidade, geram apegos ou repulsas, e modelam condutas e sentimentos.

Dispor de um inventário de imagens digitais de tamanha potencialidade para utilizar no desenvolvimento de ambientes enriquecidos de aprendizagem (EEA) que facilitem o surgimento de metaformas de conhecimento e fortaleçam a participação dos estudantes com sua própria aprendizagem coloca a National Geographic Learning em uma posição vantajosa.

 

Juan Maria Segura