Publicado na 3 de agosto de 2016

Leandro Berti, autor do livro “Nanossegurança: Guia de Boas Práticas em Nanotecnologia para Fabricação e Laboratórios” (Cengage Learning), explica como esse conceito é aplicado à nanotecnologia

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Ao escutar o termo “nanotecnologia”, geralmente a primeira coisa que vem à mente são materiais de última geração e altíssima tecnologia. Nada mais distante da realidade. Um dos primeiros exemplos na história da humanidade foi a invenção da tinta nanquim, no Egito antigo. “Os egípcios tentaram criar uma tinta com fuligem e água, mas ela não se fixava no substrato e se tornava transparente. Tiveram então a ideia de inserir fuligem na goma arábica, e então tiveram sucesso. Estava criado um dos primeiros nanocompósitos pelo homem”, explica o especialista Leandro Berti, autor do recém-lançado livro Nanossegurança: Guia de Boas Práticas em Nanotecnologia para Fabricação e Laboratórios (Cengage Learning).

Outro exemplo da aplicação da nanotecnologia, de muitos séculos atrás, é a “espada de Damasco”, uma antiga classe de armas tida como inquebrável, que unia várias camadas de diferentes tipos de aço, com teores distintos de carbono. Uma técnica de forja semelhante era utilizada na fabricação da katana, a espada longa dos samurais, guerreiros japoneses. Os nanomateriais também podem ser vistos nos vitrais usados em catedrais medievais. O tingimento do vidro era realizado com metais moídos. “A cor vermelha, por exemplo, era feita com ouro moído. A razão para isto é que o ouro em nanoescala, dependendo do seu tamanho, tem cor rubi”, explica Berti.

A própria natureza tem vários exemplos, como por exemplo, as nanomáquinas. Um exemplo é a mitocôndria, um corpúsculo celular. Em seu interior, a chamada “bomba de prótons” é capaz de compactar uma enorme quantidade de energia em um espaço minúsculo. Outro exemplo é o ribossomo, uma organela celular que transcreve a informação genética do DNA em proteínas, cada uma de uso específico. Hoje em dia é comum usarmos celulares, tablets e televisores HD/4k. Todos estes são exemplos do avanço da nanotecnologia em equipamentos eletrônicos, pois as telas são geralmente feitas de AMOLED, uma matriz ativa de diodo orgânico de emissão de luz. E para a tecnologia 4k são usados filmes de pontos quânticos, que são nanopartículas emissoras de luz responsáveis por ampliar a qualidade de imagem.

“A natureza faz tudo em paralelo, e não em série, como em uma fábrica”, diz Berti. Ele explica que os nanomateriais criados pelo homem estão passando por uma mudança de paradigma, por meio da cultura safety by design. Esse conceito significa pensar na segurança e sustentabilidade de um material ou produto antes fabricá-lo – e é sóbre isso que trata seu livro Nanossegurança. “Desse modo, são desenvolvidos produtos confiáveis e que não agridem o meio ambiente e as pessoas. Isso é a nanossegurança”, afirma o especialista.

Em sua obra, Berti aborda com detalhes os vários conceitos da Nanotecnologia e da Nanossegurança. São expostos exemplos de boas práticas em nanotecnologia para fabricação em laboratórios, explicações sobre nanotoxicidade, as propriedades físico-químicos e as técnicas de manipulação e medição dos nanomateriais.

“A cultura safety by design não é um meio, mas um começo”, diz Berti. Ele defende que esse conceito e todas as técnicas associadas serão o padrão adotado pela indústria de nanotecnologia nos próximos anos. No Brasil, está sendo desenvolvido um órgão de certificação baseado nessa cultura, que deverá estar operacional a partir do meio de 2017. O mesmo está ocorrendo em alguns países. “Na Europa, o país mais avançado em regulamentação de nanotecnologia é a Dinamarca. Na Ásia, Taiwan já confere selos para esses materiais, e o Irã também mostra bons resultados”, conclui.