Publicado na 15 de fevereiro de 2014

A chegada da sociedade da informação e a produção colaborativa não ocorreram sem aviso prévio. Na década de 1990, autores como Negroponte (Ser Digital), Tapscott (A Economia Digital) e Castells (A Sociedade em Rede) já argumentavam com solidez e evidência suficiente a favor do tipo de sociedade hiperconectada e de livre fluxo da informação na qual atualmente vivemos.

Apesar das claras evidências desses autores e de outras a respeito da forma com a qual as TICs alterariam o fluxo de informação no mundo, as instituições educativas mostram até o momento alguma dificuldade para contextualizar suas ações e trabalho, adaptando-o aos desafios das novas gerações de estudantes. Um giro pelas salas de aulas permite verificar que a adoção de novas ferramentas e condutas que a cultura digital impõe vem sendo instituída de forma lenta e sem muita convicção. Como consequência, o sistema educativo não consegue reverter os maus rendimentos mostrados nos indicadores-chave, como idade e evasão escolar, ou o índice de graduação universitária, mostrando-se impotente frente aos desafios que a sociedade impõe e recebendo por isso múltiplas reclamações. Os últimos números do exame internacional PISA, publicados meses atrás, permite verificar que os estudantes de 15 anos dos países latino-americanos se situam entre os de pior rendimento em ciências, matemática e compreensão de texto.

Uma das reclamações mais intensas e empiricamente comprovadas é feita a favor de uma educação para a compreensão, em oposição à abordagem de treinar os alunos na aprendizagem por memória com vistas a resolver testes padronizados. Nesta crítica, a voz de Howard Gardner se sobressai. O psicólogo especialista em neurociência da Universidade de Harvard está há décadas não apenas pesquisando o funcionamento do cérebro humano e sua reação frente à aprendizagem (a ele se deve a aclamada teoria das inteligências múltiplas), mas também alertando sobre a problemática que os alunos mostram na hora de associar os tópicos debatidos na sala de aula com problemas e situações equivalentes da vida cotidiana. Para o pesquisador, a compreensão é sinônimo de interpretação, contextualização, associação conceitual e síntese, habilitando quem as dominam a se moverem com comodidade entre disciplinas, culturas e problemáticas diversas.

Fruto dessa preocupação e de décadas de pesquisa, Gardner recentemente assinalou a necessidade de preparar uma forma especial para os estudantes frente aos desafios traçados desde o começo de sua trajetória. Em seu trabalho As Mentes do Futuro, o autor propõe o desenvolvimento de cinco tipos de mentes ou formas de pensamento: mente disciplinada ou disciplinar, mente sintetizadora, mente criadora, mente respeitadora e mente ética.

A primeira, sustenta o autor, emprega as formas de pensar relacionadas com as principais disciplinas acadêmicas (história, matemática, artes etc.) e as principais profissões (direito, medicina, administração de empresas etc.). Quem desenvolve e domina uma forma de pensar disciplinar é capaz de aplicar-se com diligência a uma tarefa completa, de melhorar em um ritmo constante e de continuar sua formação uma vez finalizada a educação formal ou de sala de aula, resolvendo o problema dos lifelong learners.

A mente sintetizadora, por sua vez, é aquela que possui a capacidade de selecionar informação decisiva a partir de grandes quantidades de informações disponíveis, proveniente de diversas fontes de qualidade variadas e nos diversos formatos nos quais se apresenta a informação hoje em dia (texto, imagens, vídeos, pesquisas, gráficos, jogos etc.). Essa capacidade permite expor informação e extrair conclusões ou associações de modo que tenha sentido para todos.

A mente criadora, por sua parte, vai mais além do conhecimento e da síntese das anteriores, ensejando novas perguntas, propondo novas soluções e dando forma a obras, ideias, conceitos ou abordagens, sejam a partir da ampliação dos gêneros existentes ou a partir da configuração de outros novos.

Por sua vez, a mente respeitadora responde de modo sistemático, natural e construtiva às diferenças entre indivíduos e entre grupos, esforçando-se por entender, interagir e, conforme o caso, trabalhar colaborativamente com quem são diferentes por razões de raça, religião, cultura, história, formação, gênero ou preferências de qualquer tipo. Este tipo de mente é uma capacidade superadora da mera tolerância e do politicamente correto ou aceitável.

Finalmente, a mente ética é a capacidade para distinguir os traços essenciais da função que a pessoa cumpre no trabalho e dos que exerce como cidadão, precedendo de modo coerente e harmonioso entre ambas as situações. O possuidor de uma mente ética se esforça com esmero por realizar um bom trabalho, ético, estético, justo e benéfico e, por exercer uma conduta cidadã reta e responsável.

Igualmente à sua teoria das inteligências múltiplas, o autor afirma que as cinco mentes propostas devem operar simultaneamente e em harmonia, permitindo às pessoas exercitar de maneira respeitável e responsável todo o potencial criativo e produzido que possuem e que o ambiente de informação abundante facilita.

O audaz postulado das mentes de Gardner obriga a repensar o espaço de sala de aula, a arquitetura coortes (ou Cohort em inglês) e sistemas curriculares e a tarefa do docente. As novas plataformas educativas, do tipo MindTap, da Cengage Learning, são peças centrais dentro do movimento de ruptura através do qual se vai filtrando a inovação educativa dentro do sistema. Essas plataformas e as que emergem no futuro deverão capturar os conceitos de Gardner e de pensadores equivalentes para apresentar-se como alternativas educativas reais, não simplesmente como tecnologias modernas e amigáveis.

A inovação na educação só será possível se as novas plataformas se apresentarem embebidas de princípios mais profundos da pedagogia. Ele tornara mais fácil sua adoção por parte do sistema educativo e mais perto da possibilidade de desenvolver as mentes do futuro.

 

Por Juan Maria Segura