Publicado na 25 de junho de 2014

Quando palavras como advogado, médico, arquiteto ou escritor são mencionadas, sua mente relaciona rapidamente às pessoas presumidamente idôneas em disciplinas e campos de conhecimento específicos, associadas a lugares concretos de prática ou realização profissional (os tribunais para os primeiros, um hospital para os médicos e assim por diante). O termo Community Manager,ou Gestor de Comunidades, talvez gere um pouco mais de desconforto, e é provável que tenham dificuldades ao tentar vinculá-lo às competências ou saberes específicos e práticas profissionais reais. Portanto, imagine se falo em Hacker Ético, Pregador de Internet, Responsável Conversacional ou Gerente de Felicidade, certamente o assunto se torna indecifrável.

O que acabo de descrever de forma simples é a incompatibilidade ou dissociação que atualmente existe entre o mundo do trabalho e as necessidades das organizações, e o território da educação e da certificação de capacidades e competências por meio de titulações.

Uma organização, como bem postula Ronald Coase em seu aclamado trabalho sobre a Natureza da Empresa, é uma instituição que se cria com o fim de facilitar a distribuição de bens e serviços dentro de uma sociedade. Facilitar significa tornar possível, de forma mais econômica, eficiente e sustentável possível. Para isso, são montadas estruturas que organizam esse fluxo, criando, por um lado, portfólios de ofertas de “coisas” (computadores, jeans, automóveis ou empréstimos hipotecários) e, por outro lado, necessidades de recursos e competências específicas (materiais, máquinas, oficinas, funcionários). Como boa intermediária, nesse afã de mediar para dirigir, embora faça parte do fluxo desses bens e serviços, a empresa sempre está submetida a, pelo menos, duas pressões importantes: primeiro, a mudança de preferência dos consumidores (seja por qual razão for) e, segundo, as variações nas situações de contexto dentro da qual a organização exerce sua tarefa (normativa, regulatória, tecnológica, científica).

Sim, como indica Howard Gardner ao fazer referência as mentes do futuro, a educação prepara as pessoas para uma vida de trabalho e de trabalho bem feito, estético, ético, e grande parte desse trabalho ocorre a partir de algum tipo de organização, grande ou pequena, nova ou antiga, vertical ou horizontal, pública ou privada, é claro que o sistema que provê as capacidades requeridas para fazer esse bom trabalho deve trabalhar em total sincronia com a empresa e suas necessidades, adaptando-se ao mesmo ritmo da empresa que muda suas condições competitivas.

As profissões que mencionei no começo deste texto são de longa data e todas ocupam uma função preponderante no contexto do mundo da sociedade industrial. Por isso, o sistema educativo tomou a responsabilidade de desenvolver e aperfeiçoar ao longo do tempo uma maquinaria suficientemente abrangente territorialmente e das qualidades mais diversas, com o fim de assegurar a adequada provisão desses recursos relevantes para um contexto específico de negócios.

Ou seja, a drástica mudança de paradigma que o mundo do trabalho sofreu nos últimos dez ou quinze anos, por razões vinculadas a tecnologias móveis e ao livre fluxo de informação, tem deixado desatualizado, no melhor dos casos, o que o sistema educativo oferece ao mundo do trabalho. Tome-se, por exemplo, o trabalho de atravessar os núcleos de aprendizagens prioritários exigidos no plano nacional de educação e os marcos de competências profissionais demandadas pelas organizações como The Partnership for the 21st Century ou The Institute for the Future.

O que estou assinalando pode parecer longe da realidade de seu país, mas não é. Quando se fala de educação, necessariamente deve-se levar em conta a forma com a qual os educandos de hoje conseguirão inserir-se numa sociedade de produção e trabalho, qualquer que seja a especificidade e área. Se matricularmos profissionais de gás para um mundo (fictício) que só necessita de eletricidade, teremos que conviver com um alto nível de desemprego e também nos acostumar a ter maus serviços de provisão e reparação de eletricidade. Este argumento, entendida a complexidade de funcionamento de uma sociedade, é o que redunda em, por exemplo, excesso de milhares de psicólogos e déficit de milhares de engenheiros, com problemas de escalas em ambos os lados.

Hoje as empresas requerem Hackers Éticos, Gestores Conversacionais, Gerentes de Felicidade, Community Managers e muitas outras competências e capacidades novas, raras, porém relevantes. O sistema educativo está desenvolvendo os planos e trajetórias educativos necessários para provê-las? Os responsáveis pela educação estão realizando as mudanças e esforços necessários para atualizar suas organizações e assim sustentar a função de provedores estratégicos das organizações produtivas do novo mundo?

Em 2011 o professor Nicholas Negroponte afastou-se da condução do Media Lab, do MIT, laboratório avançado criado por ele em 1985 com a finalidade de realizar pesquisas interdisciplinares em diferentes campos vinculados à tecnologia. Seu substituto, Joi Ito, um nipo-americano, foi considerado pelo The New York Times como uma escolha incomum, pois Ito não tinha formação de nível superior. Pergunto: Qual é a carreira que prepara para conduzir um laboratório como este? Talvez o mesmíssimo MIT, uma instituição situada no coração da educação formal de elite, está mostrando novamente o caminho: enquanto o sistema educativo não dá soluções, terá que buscar alternativas.

Como é, então, o trabalho do futuro para o qual estamos formando nossos educandos? Ou será que o futuro já tem um presente que nos chega de cara como um balde de água fria, diante do qual apenas reage prontamente. A Cengage Learning reconhece a tensão existente entre os paradigmas diferentes e, por meio do desenvolvimento de experiências de aprendizagens de alto valor, está em condições de acompanhar seus atores na transição de um sistema conhecido a outro em formação.

Por Juan Maria Segura