Publicado na 20 de dezembro de 2013

A teoria subjetiva do valor sustenta-se pela ideia de que as coisas valem porque as pessoas a valorizam, independentemente da quantidade de trabalho ou capital que esse bem tenha consumido durante sua elaboração. Esta ideia, hoje um tanto óbvia e intuitiva, significou uma reviravolta de 180° na teoria econômica, e encontrou na Escola Austríaca de Economia seus grandes propulsores. Do primeiro trabalho econômico desta disciplina, escrito por L. von Mises a princípio do século XX, desdobra-se uma teoria em torno da motivação e da práxis própria do ser humano, que o levou a atuar e decidir baseando-se na forma consciente ou inconsciente em contrastar ideias de utilidades marginais.

Da mesma maneira que ocorreu na economia, os avanços nas teorias da aprendizagem estão produzindo uma reviravolta igualmente transcendente. A ideia de que as crianças só aprendem se forem bem ensinadas, paulatinamente, vai sendo substituída por aquela que afirma que as crianças só aprendem se querem. Novas teorias, como a da aprendizagem com mínima intervenção, proposta por Sumatra Mitra, destacam a estrutura adequada dos espaços de aprendizagem, assinalados como ativadores da curiosidade, da dúvida e da busca pelo significado, em detrimento da escolha dos conteúdos.

Denomina-se ambiente enriquecido de aprendizagem (AEA) aquele que habilita a utilização de todos os sentidos na aquisição de informação. Comparado com o formato de sala de aula clássico, que incentiva uma aprendizagem por memória, o AEA recria com maior fidelidade a exposição do indivíduo a uma experiência multidimensional e sensorial, similar a que ocorreria se não fosse mediada por um sistema educativo ou uma instituição. No AEA, o enriquecimento da aprendizagem origina-se de múltiplas fontes e instrumentos, produzindo uma maior utilização de ambos hemisférios cerebrais, o que se pode verificar cientificamente a partir da obtenção de cérebros com um córtex mais grosso, maior quantidade de ramificações dendríticas, mais prolongamentos de crescimento e maiores corpos celulares.

A presença de AEA, ao descentralizar parte da representação artificial organizada discretamente dentro da sala de aula, aumenta a naturalidade com a qual o estudante constrói suas capacidades neurocognitivas, gerando um espaço para a expressão e participação da sensibilidade no processo de aprendizagem. Durante um processo desta natureza, há uma convergência da racionalidade e da sensibilidade, pois os sistemas estão tão bem interconectados que os componentes químicos da emoção se liberam quase que de modo simultâneo com os da cognição. Habilitar a expressão e a participação espontânea das emoções no processo de aprendizagem permite direcionar a atenção para os lugares desejados e não aos conteúdos impostos, criando significados originais e próprios, e deixando registros na memória de uma forma particularmente rica e complexa. A sinfonia entre o cérebro pensante e o cérebro afetivo aumenta o nível de captura de informação, enriquece a criação de significados e potencializa o nível agregado da aprendizagem, da pessoa e de seu rendimento.

Os AEA consistem no formato e na estrutura do ambiente, conceitualizando o espaço ao qual deve migrar o espaço de sala de aula. Nos AEA, a possibilidade de envolvimento do estudante visando a aprendizagem é maior e ocorre com espontaneidade, reduzindo a necessidade do direcionamento e guia, e aumentando a disposição à criação de aprendizagens significativas. As ameaças como estrutura instrucional estimuladora da aprendizagem por defeito não resultam um mecanismo eficaz a partir do momento em que criam um ambiente que restringe a participação dos sentidos através da presença de tensão, estresse, ameaças e ansiedade. A eliminação das ameaças e a criação de um clima gerador de confiança, curiosidade, cooperação, relação e autocontrole favorecem a dinâmica da aprendizagem e o desenvolvimento da capacidade de “aprender a aprender”.

É importante remarcar a relevância do significado na aprendizagem, não apenas como um ativador da curiosidade numa projeção futura, mas também como um mecanismo de formação de conceituações, argumentações e reflexões mais sofisticadas, complexas e originais. O significado está relacionado ao menos com um destes três fatores: relevância (é uma função da elaboração cerebral de uma conexão dos neurônios existentes), emoções (são desencadeadas pela química do cérebro) e contexto (provoca uma elaboração de modelos particulares).

Uma teoria subjetiva da aprendizagem captura de forma plena os avanços e teorias implícitas anteriores. Assim como na economia as coisas valem porque alguém as valoriza, na educação também se pode afirmar que as aprendizagens se fixam com maior eficácia e significado no cérebro quando são resultado de um processo autodirigido de dúvida e experimentação.

É evidente que esta abordagem, cientificamente comprovada e validada por outras abordagens que demonstram resultados contundentes de aprendizagem, encontra natural resistência dentro do sistema educativo, principalmente pela nova função definida para o docente. Nos EEA, o docente, agora transformado em tutor, acompanha o estudante num processo individual de exploração e dúvida, oferecendo espaços e momentos para a reflexão. O centro da sala de aula, antes território exclusivo de um docente todo poderoso, é agora ocupado tanto por caminhos educativos como por alunos, diferenciando-se em cada caso de acordo com as preferências, vocações e experiências anteriores de cada estudante.

É por este motivo que a criação de experiências de aprendizagem deve ser convertida num campo de pesquisa especialmente relevante para a pedagogia e a prática de sala de aula. Sim, como disse recentemente o especialista Rivas, as salas de aula atuais não são aptas para a aprendizagem[1], é de suma importância criar ambientes, instrumentos e práticas que conectem mais fielmente com a ideia de que os mesmos estudantes são quem devem e podem apropria-se de sua trajetória de aquisição de informação, conteúdos e significados. Isto é o que se denomina valor, e é o que dá sentido a uma nova teoria.

 

Por Juan Maria Segura 

[1]A entrevista completa realizada com Axel Rivas, publicada no jornal La Naciónem 22/dez/2013, está disponível em: <http://www.lanacion.com.ar/1649624-axel-rivas-el-problema-de-fondo-es-que-nuestras-aulas-hoy-no-son-aptas-para-el-aprendizaje>.