Publicado na 7 de março de 2016

Por Juan Maria Segura


É pertinente que educadores e adultos interessados no tema se perguntem: por que a população estudantil decide, ano após ano, dar as costas ao sistema público justamente quando o Estado mais decidiu investir em educação, usando até mesmo porcentagens do PIB como base? Ou, analisando de uma forma mais geral, por que a educação escolar formal, pública e privada, perde adeptos e não consegue reverter seus já estáveis índices de repetência e evasão escolar?

Um importante trabalho sobre a questão da evasão escolar, realizado pelo Sistema de Informação e Tendências Educativas da América Latina (Siteal), dá algumas pistas a respeito. A partir de pesquisas domiciliares e da medição dos níveis de escolarização em 18 países da região, pode-se observar alguns padrões relativamente constantes nos últimos anos. Apesar dos esforços orçamentais, normativos e regulatórios de todos os países, os níveis de evasão até o fim do ciclo escolar mal conseguem se reverter.

Com índices de escolarização de 98% na população estudantil entre 7 e 12 anos, a partir dos 13 anos, a situação muda e segue numa linha decrescente que culmina com mais de 35% da população adolescente não escolarizada aos 17 anos de idade. O dado não é novo, e talvez por isso mesmo os governos estejam reagindo, tentando impor por lei o ensino obrigatório e o término do ciclo educacional, no qual o sistema apresenta sua maior fissura. No entanto, o relatório do Siteal nos permite verificar que a principal razão para as crianças abandonarem a escola é porque… ela os entedia.

As seis possíveis causas da evasão escolar apontadas pelo estudo são: motivos de deficiência; necessidade de trabalhar; vida doméstica; dificuldades econômicas; problemas de ofertas educativas, e o já mencionado tédio.

Na faixa dos 11 a 12 anos de idade, os problemas econômicos familiares são responsáveis por 35% da evasão, sendo a causa dominante. Entretanto, nesta faixa etária, o abandono escolar ainda não é um problema de grandes proporções, já que é um problema de uma população relativamente pequena. Já a faixa dos 16 aos 17 anos de idade representa o momento de maior desgaste da escola secundária, com estudantes alegando desinteresse, desânimo e tédio em 40% dos casos. Se bem que os problemas de necessidade de trabalhar, dominante nos meninos, e de vida doméstica, quase exclusivo das meninas, aumentam com a idade – a somatória das duas causas alcança 30% dos casos de evasão nesta idade. Outros três problemas, que são deficiência, oferta e dificuldade econômica, diminuem com a idade mais avançada, compondo 30% dos casos ao final do ciclo educativo.

Portanto, se adultos, legisladores e educadores precisassem resolver um problema para reduzir a evasão escolar, começariam por transformar a passagem dos alunos pela escola uma experiência significativa e relevante de aprendizagem, seja na escola pública ou na privada.

O relatório deveria iluminar as ideias e políticas que estão sendo promovidas pelo Estado. Resoluções como a Lei Nacional de Educação 26.206 da Argentina, discutida e acordada por uma ampla gama de políticos e especialistas, enfatizam a inclusão dentro da escola para uma população de crianças e adolescentes que, supõem, querem assistir às aulas, mas não podem por situações familiares e socioeconômicas adversas. A premissa é falta – ou, ao menos, incompleta. As crianças, em sua maioria, deixam a escola, como indica o estudo do Siteal, porque estão entediadas.

Não há pior surdo do que quem não quer escutar, nem pior político do que quem governa ou legisla sem considerar os argumentos e queixas da sociedade. Não podemos aceitar, frente a uma evidência tão contundente como incontestável, uma resposta dos políticos propondo adicionar mais cavalos à carreta. Por mais que nos esforcemos, as crianças conseguem encontrar experiências de aprendizagem significativas na educação não formal e informal fora do sistema escolar.

Por isso, é imprescindível que endossemos a reivindicação de Sir Ken Robinson. A escola não deve ser reformada, mas reinventada. Temos que aceitar que os educandos crescem em ambientes de saturação digital, que desenvolvem habilidades, desde pequenos, para operar dispositivos móveis e para navegar com comodidade na internet em busca de relações, experiências ou jogos, e que se valem de uma nova linguagem, que o autor Logan chama de “sexta linguagem”: a do chat. Devemos entender que o movimento dos “indignados” de 2010, na Espanha, não foi uma tentativa de golpe de Estado aos sistemas democráticos, mas um aviso para aqueles que aconselham instituições criadas em outro contexto para explicar outros problemas – não os atuais.

Por último, devemos adotar uma atitude mais inovadora e exploratória e, aceitando nossa ignorância ou disfuncionalidade, temos que refazer nossos votos de aprendizes e nos lançarmos a experimentar. Talvez dessa maneira poderemos, enfim, entender quanto de Coursera, Wikipedia, Khan Academy, Duolingo ou plataformas similares pode ser integrado dentro de nossas novas estruturas ou dispositivos de aprendizagem.

Enquanto as crianças se entediam, inclusive quando conseguimos “prendê-los” dentro da sala de aula, não os estaremos preparando para se desenvolverem com liberdade e responsabilidade no mundo de contornos borrados que se vai formando. Além disso, afirmo que as crianças só aprendem quando assim o querem. Será que compreendemos a profundidade filosófica e antropológica deste anúncio?