Publicado na 22 de dezembro de 2014

É pertinente que os educadores e adultos interessados no tema nos perguntem por que a população estudantil na região decide, ano após ano, dar as costas ao sistema público, justamente quando o Estado decidiu investir mais nele, em termos de despesa em percentagem do PIB. Ou, indo para um nível de análise mais geral, por que razão a educação escolar formal, pública e privada perde seguidores e não consegue reverter suas taxas já estabilizadas de repetição, sobrecarga e abandono escolar.

Um importante trabalho sobre a questão da evasão escolar, conduzido pelo sistema de informação de Tendências Educativas na América Latina (SITEAL), fornece algumas pistas a respeito. A partir de pesquisas domiciliares e medição dos níveis de escolarização em 18 países da região, foi possível observar alguns padrões relativamente consistentes ao longo dos últimos anos. Apesar dos esforços orçamentais já mencionados, políticos e regulamentares de todos os países, os níveis de abandono escolar para o final do ciclo escolar quase não conseguiu se reverter. Com índices de escolarização de 98% na população de estudantes entre 7 e 12 anos, a partir dos 13 anos a situação começa um curso firme e estável, que conclui com mais de 35% da população adolescente não escolarizada na idade de 17 anos.

Os dados não são novidades e talvez por isso observamos os governos reagindo, tentando impor por lei a escolaridade dupla e a obrigatoriedade no ciclo de ensino em que o sistema mostra a sua maior fissura ou filtração. No entanto, o relatório SITEAL nos mostra que o principal motivo pelo qual as crianças deixam a escola é porque … elas se sentem entediadas.

As seis possíveis causas de abandono escolar identificadas pelo relatório são: i) motivos de deficiência, ii) necessidade de trabalhar, iii) vida doméstica e demandas caseiras, iv) dificuldades econômicas, v) problemas de oferta educativa e vi) o já mencionado problema do tédio.

Na faixa etária de 11-12 anos de idade, os problemas familiares econômicos são responsáveis por 35% do abandono, sendo a causa dominante. No entanto, neste grupo etário, o abandono ainda não é um problema de magnitude, o qual circunscreve o problema a uma população relativamente pequena. Em contrapartida, na faixa de 16 a 17 anos de idade, que é o momento mais devastador do ensino médio, o desinteresse, o tédio e o desânimo explicam os 40% dos casos. Enquanto os problemas da necessidade de trabalhar, dominante nos meninos e vida doméstica, quase que exclusivamente para meninas, aumentam com a idade, a somatória dos dois casos na última faixa etária não alcança os 30% dos casos. E os outros 3 problemas, que são deficiência, oferta e as dificuldades econômicas, diminuem com o aumento da idade, explicando em conjunto no final do ciclo uns 30% dos casos. Portanto, se como adultos, legisladores e educadores tivéssemos que priorizar e abordar uma frente de conflito por vez, para reduzir o abandono escolar, não hesitaria em começar por transformar a passagem dos estudantes pela escola em uma experiência significativa e relevante de aprendizagem, seja na escola pública ou privada.

O relatório de referência deveria iluminar as idéias e políticas que são promovidas pelo Estado. Resoluções como a Lei Nacional de Educação 26.206 da República Argentina, discutida e acordada por um conjunto amplo de políticos e especialistas, coloca especial ênfase na inclusão dentro da escola de uma população de crianças e adolescentes que supõe, desejam participar, porém não o podem fazer por situações familiares e sócio-econômicas adversas. A premissa é falsa ou pelo menos incompleta. As crianças saem da escola, em sua maioria, como indicado pelo relatório da SITEAL, porque estão entediadas.

Não há pior surdo que o que não quer ouvir, nem pior político que governa e legisla sem considerar os argumentos ou as alegações da sociedade. Não podemos aceitar que, diante de uma evidência tão contundente quanto indiscutível, a resposta dos políticos e educadores seja … adicionar mais cavalos no carro. Por mais que tentemos e coloquemos sorrisos no rosto, os meninos se afastam para encontrar experiências de aprendizagem significativas na educação não formal e informal, fora do sistema escolar.

Portanto, é imperativo que incorporemos a alegação de Sir Ken Robinson. A escola não deve ser reformada, mas reinventada. Temos que aceitar que as crianças e jovens alunos crescem em ambientes de saturação digital, desenvolvendo desde pequenos, habilidades para operar dispositivos móveis para navegar na internet confortavelmente, em busca de relacionamentos, experiências e jogos, e usam uma nova língua, que o autor Logan chama a sexta linguagem: no chat. Devemos entender que o movimento de indignados de 2010 não foi uma tentativa de golpe aos sistemas democráticos, mas um aviso para aqueles que recomendamos instituições criadas em outro contexto para explicar outros problemas, não os atuais. Temos que finalmente, tomar uma atitude mais inovadora e exploratória e aceitar nossa ignorância ou disfuncionalidade, devemos refazer os nossos votos de aprendizes e nos lançarmos para experimentar. Talvez dessa maneira possamos conseguir entender o quanto de Coursera, Wikipedia, Khan Academy, Duoling ou plataformas semelhantes pode ser integrado em nossas novas estruturas ou dispositivos de aprendizagem.

Enquanto as crianças se entediam, mesmo quando podemos acorrentá-las dentro da sala de aula, não estamos preparados para lidar com a liberdade e a responsabilidade no mundo de ambientes destorcidos que está em formação. Mitra, em alguma oportunidade disse que as crianças aprendem somente quando querem. Será que já entendemos a profundidade filosófica e antropológica desta declaração?

 

Por Juan Maria Segura