Publicado na 17 de novembro de 2015

Por Juan Maria Segura


Em 2014, estreou um filme chamado Frontera. O longa-metragem trata do drama de uma família mexicana que, ao cruzar ilegalmente para os Estados Unidos, sofre acusações injustas e se envolve em uma trama de morte e corrupção. O filme não é original nem na temática, nem na abordagem, pois desenvolve uma trama já superexplorada por Hollywood. No entanto, de uma forma notavelmente atual e não intencional, permite-nos discutir o conceito da fronteira – não só da nação, mas como um conceito cultural extensível ao plano educacional.

A fronteira é um conceito genérico transcendental do ser humano, em especial do homem contemporâneo. Segundo a definição do dicionário, é tanto onde termina um país e a linha divisória entre dois estados, como um limite ou linha que separa duas coisas, marcando a extensão de cada uma delas. A fronteira integra, porque reúne dentro de seus limites as partes soltas; mas também segrega, porque separa e afasta agrupações diferentes. Ela também encerra e restringe, porque cria espaços físicos ou conceituais que, com o tempo, são condicionados em suas relações entre culturas, práticas ou consensos criados em torno de seus elementos constitutivos; mas também contém e dá robustez às partes com um tom mais complexo e distinguível.

Quando pensamos na fronteira de um país, entre México e Estados Unidos no caso do filme, os conceitos são claros e tangíveis. As fronteiras físicas, convenções do homem, são facilmente reconhecíveis, mesmo que não necessariamente explicáveis ou, menos ainda, satisfatórias. A linha que separa estes países, como a Muralha da China, os Pirineus, a Cordilheira dos Andes, o Canal da Mancha ou, em outro momento, o Muro de Berlim, são limites arbitrários, resultantes de um processo histórico de tensão e disputa, finalmente aceitos como válidos, até que não sejam mais reconhecidos como tal. O Muro de Berlim já não existe.

A educação, assim como os países, está infestada de fronteiras e convenções. A escola, sem ir mais longe, é um espaço físico que integra um conjunto de elementos, práticas e atores que, por definição, está separado por meio de uma fronteira de um “mundo externo”, no qual ou não se aprende, ou não se aprende tanto ou, no mínimo, não se aprende da forma como é feito dentro dela. Esse é o conceito fundamental da escola: o de um espaço novo de integração de elementos que favorecem a emergência de uma aprendizagem que não ocorre de maneira natural e espontânea no mundo real, externo.

Dentro da escola, a separação de alunos também se realiza por meio de fronteiras – de idade e de localização física. A grade curricular, por sua vez, é um conjunto arbitrário de temas e conceitos apresentados com separações claras e contundentes, sem diálogo algum entre eles. A geografia não “dialoga” com a matemática, e esta não tem relação com a botânica nem com a educação cidadã. Esta forma de organização disciplinar provém de um método de conhecimento científico, organizado disciplinarmente, cria e ilumina desde um núcleo de conceitos e “saberes” centrais até a periferia, borda, limite ou fronteira desse conhecimento ou saber particular. Já os docentes e professores operam dentro dessa organização territorializada, restringindo sua prática a espaços muito específicos de sistemas segmentados, também demarcados por fronteiras.

Como se pode ver, tanto os países como as escolas evoluíram e profissionalizaram sua prática por meio da definição cuidadosa e da defesa ferrenha de suas fronteiras. Dentro dessa lógica e da convenção da época, conseguiram progredir ao longo de um período histórico parecido, chegando a se constituírem em instituições dominantes do século passado.

Até que um dia a internet foi criada e tudo mudou. As fronteiras que representaram esse território de disputa de poder, tão bem descrito pelo historiador Paul Johnson, logo se tornaram porosas e difusas. Já menos controláveis, porque a informação começou a se infiltrar por suas fissuras, deixaram de conter. Enquanto os regimes totalitários do norte da África cederam ante esta nova realidade, Cuba abandonou paulatinamente seu confinamento e a China ocidentalizou seu sistema de produção. Este enfraquecimento das fronteiras como fim de um país ocorreu em paralelo à emergência de grandes e ativas comunidades online, tão poderosas como foram os Estados nos anos 1970. Imediatamente, emergiram os cidadãos digitais. Hoje, você pode ser cidadão digital da Estônia sem sequer viajar ou conhecer o território. Nesta definição, onde foram parar as fronteiras que davam identidade ao cidadão, com bandeira e hino?

Na educação, a chegada da internet também operou no mesmo sentido: debilitou suas instituições e atores. Um dia, a oferta de educação online se massificou, emergiram as MOOCs (cursos abertos massivos pela internet) e o livro físico de fronteiras claras (capa, folhas, começo e fim) se converteu em uma leitura hipertextual aberta. Logo começamos a falar menos de um indivíduo ensinando e mais de como muitos aprendem seguindo trajetos individuais de aprendizagem.

Os governos sem fronteiras claras debilitam tanto seus funcionários como a escola sem fronteira enfraquece os administradores e profissionais de educação. A Comunidade Econômica Europeia e o Parlasur devem ser interpretados sob o ponto de vista político-institucional, da mesma forma que devem ser levadas em conta na educação as correntes de investigação e prática a favor da aprendizagem não formal e informal, além da inclusão dentro do sistema de atores e instituições que, historicamente, se alojaram além da fronteira de educação (museus, oficinas, clubes, parques públicos, fábricas), longe das regulações e normas.

Avançamos a passos firmes rumo a um mundo sem fronteiras – ou, ao menos, sem as fronteiras que nos sujeitaram e catalogaram durante tanto tempo. Configura-se um momento histórico sem precedente, no qual deveremos admitir, por exemplo, que a educação online não é contrária à educação presencial, já que cria uma nova forma de estar na rede, mediada por tecnologias e tantos outros conceitos.

Discutir a partir de dogmas de conceitos fronteiriços antiquados nos impedirá de reconhecer, por exemplo, que um cidadão de Juarez e outro de El Paso, ou um chileno da Patagônia e um argentino da Patagônia, têm tanto em comum como um estudante de 15 anos e outro de 68 unidos por meio de uma mesma plataforma virtual, perseguindo os mesmos objetivos de aprendizagem. O debate continua!