Publicado na 1 de fevereiro de 2016

Por Juan Maria Segura


A discussão sobre a nova escola e a nova pedagogia tem ocupado, agitado e, na maioria das vezes, fascinado quem atua ou tem interesse em educação. Essas pessoas compreendem a complexidade da tarefa que enfrentam, mesmo sem saber com certeza como resolver a encruzilhada na qual se encontra o modelo que complementa ou substitui o sistema atual. A problemática é multidimensional – e uma dessas dimensões se refere à tarefa do professor.

O docente, em todos os seus níveis e especialidades, é um dos grandes protagonistas dos Estados modernos, mesmo que seu trabalho não tenha alta visibilidade (salvo, lamentavelmente, quando as coisas não dão certo). Junto a médicos e policiais, compartilha a tarefa primordial de prover os elementos de maior importância para que a sociedade exista. O papel específico e fundamental do professor é, simplesmente, educar.

Para além das questões específicas das profissões, os educadores são diferentes dos profissionais de saúde e dos agentes de segurança porque os dois últimos trabalham para evitar que as coisas ocorram, em particular, enfermidades e delitos, respectivamente. Suas tarefas são fundamentalmente preventivas e seus êxitos são verificados na queda das doenças e da violência. Claro que as enfermidades e os delitos mudam de forma, e isto torna complexa e desafiadora a tarefa de médicos e policiais. No entanto, o foco de sua atuação é sempre na prevenção, que consiste em identificar tendências antecipadamente para impedir problemas sociais.

A ação do professor, entretanto, baseia-se na concretização. Os docentes são suscitadores ou facilitadores para a ação. Não há limites no alcance de sua tarefa, que se baseia em transmitir, conectar, avivar interesses, guiar processos exploratórios, desenvolver hábitos de pensamento, enlaçar de forma contínua elementos do passado com aspectos especialmente úteis do ambiente circundante a fim de preparar os estudantes para um futuro desconhecido – ainda que imaginado e projetado. Esta tarefa, tão peculiar e complexa, e com evidências de êxito difíceis de verificar no curto e no médio prazo, adquire a forma de um grande desafio na nova ordem mundial da interconectividade e da cultura colaborativa. A convergência digital e o fluxo permanente de informação a que são expostos os alunos levantaram a necessidade de revisar o trabalho dos professores. Para este fim, é conveniente fazer uma pequena revisão do conceito 2.0, porque uma compreensão apropriada de seu alcance pode ser útil para pensar no novo educador e no novo desafio do docente.

O conceito 2.0 foi instituído originalmente por O’Reilly e Battelle, em 2004, ao fazerem referência à web 2.0 durante uma conferência realizada em Londres. Pensando na web como uma arquitetura de intercâmbio expandida já a níveis planetários nesse ano (840 milhões de pessoas conectadas à rede), os autores assinalavam a mudança de um modelo informativo, unidirecional e com processos editoriais controlados para um mais participativo e bidirecional. O caso que melhor descrevia essa mudança era a transição do modelo da Enciclopédia Britânica online para o modelo da Wikipedia. Coincidentes com esta definição, em 2004 nasciam Facebook, YouTube e Flickr, três dos principais protagonistas do mundo das redes sociais e aplicativos 2.0.

Posteriormente, em um artigo publicado na MIT Sloan Management Review, em 2006, o professor de Harvard Mc Afee estendia o conceito ao universo das organizações e apresentava a empresa 2.0. Para o autor, a organização 2.0 era aquela que desenvolvia ou adquiria plataformas tecnológicas de participação para tornar visíveis as práticas e resultados de seus trabalhadores. Nesse mesmo ano, o autor Tapscott publicava o livro “Wikinomia”, aprofundando o que denominou como a nova arte e ciência da colaboração, com quatro pilares constitutivos: a abertura, a interação entre pares, o ato de compartilhar e a atuação global como área de gestão. O estudo de Tapscott apresenta pela primeira vez a ideia de um ambiente de trabalho 2.0.

A extensão do conceito 2.0 não se deteve aí, alcançando governos, escolas, a prática de gestão, o conceito de liderança e inúmeras instituições ou profissões desafiadas pela nova ordem das coisas. É por isso que, neste contexto e evolução da discussão, não é forçado aumentar a necessidade de falar de um professor 2.0.

Não é a intenção desta reflexão fazer uma descrição exaustiva do perfil de um docente 2.0. Primeiro, porque é arriscado e pretensioso dar informações conclusivas sobre a reelaboração de uma prática de longa data na nossa sociedade que levará décadas para ser reformulada. Mas em segundo lugar, e mais importante, não parece ser este o tema em discussão. O que propuseram em seus escritos, tanto O’Reilly inicialmente, como Mc Afee e Tapscott depois, não foi uma classificação taxonômica, mas uma nova discussão, uma nova abordagem para revisar as práticas de aula e as didáticas no ensino dos professores. Suas ideias desafiaram crenças profundamente arraigadas e convidaram a um novo debate – aberto, honesto e sem preconceitos. É necessário repensar a tarefa do educador: não tanto para “o que” e “para quem”, mas, principalmente, “como”, “onde” e “quando”, lembrando que a aldeia global possui 2.500 milhões de internautas e 1.500 milhões de smartphones, e que os livros eletrônicos já representam mais de 50% das vendas de livros no mundo.

O professor continuará responsável pela mesma missão e se dirigindo aos mesmos públicos, mas suas práticas, técnicas, recursos, didáticas, dinâmicas e lugares de atuação deverão se adaptar a um mundo mais interconectado e melhor informado. Seus impactos e a relevância de sua atuação dependerão em boa medida da maneira como essas práticas serão adaptadas e implantadas.

 O desafio de repensar a nova prática docente dentro da nova escola e da nova pedagogia se soma ao debate de qualquer nação que crê que a educação muda a trajetória futura – não só de um aluno, mas de um país.

Docentes 2.0, bem-vindos!